Preâmbulo

A entrevista em profundidade é uma técnica qualitativa de produção de dados em que o pesquisador conduz, com um único interlocutor, uma conversa longa, orientada por perguntas predominantemente abertas, sobre temas que exigem algum grau de reflexão ou julgamento por parte do entrevistado. Diferentemente do questionário, que mede a distribuição de respostas em uma população, e do grupo focal, que observa a interação entre participantes, a entrevista busca acesso à subjetividade (opiniões, julgamentos, aspirações e justificativas, inclusive suas contradições) e à relação entre essas expressões individuais e as estruturas sociais. A técnica é antiga e difusa, presente também no jornalismo e na psicologia, e foi codificada pelas ciências sociais ao longo do século XX. O verbete trata dessa forma específica de entrevista, e não do conjunto de práticas que o termo abrange, e apresenta sua história e seus fundamentos, as decisões de pesquisa que ela envolve (adequação ao problema, recrutamento, número de entrevistas, condução e transcrição), suas vantagens e limites, três exemplos de aplicação e os debates atuais sobre reflexividade, entrevistas on-line, análise assistida por programas e métodos mistos.

1. Histórico e fundamentos epistemológicos

Justamente por sua diversidade, é difícil definir uma disciplina originária da entrevista, mas sua relevância perpassa a história das ciências sociais. Em “Of Sociology and the Interview”, de 1956, Mark Benney e Everett C. Hughes já afirmavam que a sociologia havia se tornado a ciência da entrevista (Tavory, 2020). Quase sessenta anos depois, Lamont e Swidler (2014) continuavam a apresentar a entrevista como o principal instrumento do método sociológico. Embora a antropologia seja mais bem caracterizada pela etnografia e a política pelo questionário, não há dúvidas de que a entrevista é familiar a essas disciplinas, sendo uma técnica típica das ciências sociais. Por isso, menos do que inventada, a entrevista precisou ser codificada e diferenciada de outras áreas, como o jornalismo e a psicologia (Barbot, 2010/2015).

A apropriação feita pelas ciências sociais pode ser remontada aos esforços que buscavam diferenciar-se de um certo positivismo, supostamente presente nas análises quantitativas, que observavam regras gerais, mas não eram capazes de compreender os sentidos que lhes eram atribuídos pelos indivíduos. É por isso que já encontramos a entrevista nas pesquisas de Weber. Sabe-se que o sociólogo alemão fez diversas entrevistas informais durante sua carreira, como na viagem aos Estados Unidos (EUA) em 1904, e que elas lhe auxiliaram a interpretar os sentidos subjetivos, por exemplo, da ética religiosa e sua relação com a conduta de vida econômica, tema central de “A Ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo”. Algumas décadas mais tarde, as entrevistas informais se tornaram uma técnica frequente na Escola de Chicago, como no clássico “The Hobo”, de Nels Anderson, de 1923. Em 1943, um egresso de Chicago, William Foote Whyte, publica “Street Corner Society” (Sociedade de esquina), integrando fortemente as entrevistas ao trabalho etnográfico. Em comum, as entrevistas eram mobilizadas nessas pesquisas para acessar o significado subjetivo que os atores investigados atribuíam às suas ações, algo que as estatísticas não mostravam e que ficava disperso demais apenas nas observações etnográficas.

No Brasil, a Escola de Chicago foi influente e, não por acaso, as entrevistas aparecem como técnica de pesquisa na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, em especial nos trabalhos precursores de Donald Pierson, que foi aluno de doutorado de Robert Park. Florestan Fernandes fez seu mestrado na Escola, e seu estudo com Roger Bastide, “Brancos e negros em São Paulo”, pode ser considerado precursor do uso das entrevistas no país. No estudo, publicado originalmente em 1955, Bastide e Fernandes (1955/2008) utilizaram diversas técnicas de pesquisa, tanto qualitativas quanto quantitativas. No que nos interessa, eles usaram “entrevistas ocasionais”, como conversas realizadas em viagens de ônibus, corridas de táxis etc., e “entrevistas formais”, realizadas a partir de um plano previamente estabelecido.  Ao realizarem entrevistas com brancos e negros, puderam perceber como o racismo funcionava contra o negro, impedindo sua integração na sociedade de classes, favorecendo o branco como forma de autodefesa na competição capitalista.

Desde então, o uso de entrevistas se solidificou e várias foram suas codificações, como o trabalho precursor de Robert K. Merton e Patricia L. Kendall (1946), intitulado “The Focused Interview”, e, com Marjorie Fiske, como livro em 1956. Este verbete trata de técnicas e reflexões que são consequência dessa história, ainda em curso.

2. Procedimentos principais

Todo método deve ser encarado como auxiliar na busca pela compreensão do objeto sociológico. Isso é dizer que a apuração metodológica deve ser feita não como um fim em si, mas como a criação das melhores condições para dar conta de um problema de pesquisa. Método tem codificações, protocolos, procedimentos que, contudo, não devem ser uma camisa de força. O campo também pode apresentar dados imprevistos pelo método ou impor dificuldades que exigem a adaptação do investigador. É por isso que o método deve ser visto como algo vivo, o tempo todo revisto durante o processo de pesquisa. Em “O ofício de sociólogo”, de 1968, Pierre Bourdieu, Jean-Claude Chamboredon e Jean-Claude Passeron comparam os que levam a preocupação metodológica à obsessão ao paciente descrito por Freud que passava o tempo a limpar os óculos sem nunca os pôr.

Outro aspecto do método é sua relação com a teoria. Segundo Barbot (2010/2015), o pesquisador que faz entrevistas procura identificar e explorar, à medida que acumula dados e avança na análise, situações contrastadas que lhe permitam construir um quadro teórico. Sejamos mais específicos. O método busca responder a um problema de pesquisa sempre informado teoricamente. Sem uma teoria que informe o problema de pesquisa, não se pode saber que método usar, quais dados recolher e como analisá-los; restam apenas dados sem sentido. Defendo a pesquisa empírica e entendo que teoria sem empiria reifica os conceitos, mas concordo com Adorno: empiria sem teoria reifica a realidade.

Dessa forma, tudo se inicia com um bom domínio do problema de pesquisa e, a partir disso, a resposta sobre se a entrevista é a técnica adequada. E quando ela o é? É difícil dizer em abstrato, mas algumas características devem estar presentes.

Comecemos pelo que não devemos esperar. É necessário que o objetivo da pesquisa não seja quantificar uma população, nem que a preocupação principal seja a representatividade dos grupos ou das pessoas entrevistadas. Também não bastam dados previamente produzidos para outros fins (como documentos, informações de internet etc.), nem observar as pessoas em interação umas com as outras ou em seus ambientes comuns (quando os grupos focais e as etnografias, respectivamente, farão melhor trabalho).

A entrevista é, então, uma técnica adequada, em especial na forma como a entendo aqui, quando me importa recolher informações originais produzidas pelos participantes para a própria pesquisa. Isso é relevante porque, ao contrário de outras técnicas, na entrevista os dados são necessariamente produzidos em função do problema de pesquisa, a partir da provocação do pesquisador que elabora a pergunta. Ao mesmo tempo, as respostas são imprevistas e justamente importa notar a maneira como os próprios entrevistados agem naquele contexto.

Dessa forma, entrevista é especialmente adequada quando as informações desejadas envolverem opiniões, julgamentos, aspirações, ou seja, expressões de uma subjetividade provocada pela interação com o entrevistador. Isso significa que as entrevistas são apropriadas quando me interessa compreender o subjetivo de maneira profunda e complexa, sendo as contradições dados de análise e não um ruído. Em uma entrevista que fiz no contexto de uma pesquisa na qual buscávamos compreender a distinção na cidade de São Paulo, um entrevistado me respondeu que artistas musicais preferia. Dois dias depois, ele me mandou uma mensagem pedindo para corrigir sua resposta, acrescentando artistas que, nitidamente, representavam maior legitimidade cultural. A necessidade de “correção” revelava uma contradição que, se estivesse presente em um questionário, seria um problema para a análise. No caso da entrevista, contudo, a contradição é o dado que revela uma prática espontânea mais ligada à cultura popular comercial, mas um reconhecimento da e uma aspiração à cultura legitimada.

A entrevista é uma técnica adequada também quando se busca compreender ao mesmo tempo as estruturas sociais imanentes aos sujeitos e as formas coletivas e singulares a que eles dão respostas. Pelo acúmulo de entrevistas em uma pesquisa, somos capazes de encontrar padrões e os relacionar com a ordem social mais ampla. Contudo, pela forma como os sujeitos respondem a esses padrões, somos também capazes de identificar as variações individuais ou dos grupos, e mesmo as variações de um mesmo indivíduo em diferentes contextos, como propõe Bernard Lahire ao realizar múltiplas entrevistas com uma mesma pessoa. As entrevistas, portanto, são a técnica adequada não apenas para compreender o indivíduo, mas também para quem se interessa em compreender a relação entre esse e as estruturas sociais.

Decidida a opção pela entrevista, é necessário realizar o recrutamento. Há diversas técnicas disponíveis em manuais e não me interessa descrevê-las aqui. Faço apenas algumas ponderações. Em primeiro lugar, é preciso separar entrevistas com indivíduos singularizados de entrevistas com indivíduos desconhecidos. No primeiro caso, o próprio objeto impõe quem deve ser entrevistado, sendo sua substituição impossível ou danosa para a pesquisa. Quando não é o caso, é preciso ter critérios de recrutamento. Esses critérios só podem ser conhecidos pelo pesquisador e devem ser definidos em função do problema de pesquisa. Uma vez definidos os critérios, há técnicas que podem ajudar a chegar a um corpus mais adequado ao que se quer estudar. Para tanto, podemos utilizar outros métodos de forma exploratória. Por exemplo, é bastante útil aplicar um pequeno questionário a uma população, recolhendo informações suficientes para conhecer as pessoas que importa que sejam entrevistadas. Suponha-se que se esteja investigando professores universitários que sejam trânsfugas de classe. Um pequeno questionário com dados básicos sobre mobilidade social, a ser distribuído em universidades selecionadas, permitirá identificar o corpus possível e, assim, partir para um recrutamento mais preciso. O mesmo pode ser feito com informações disponíveis em redes sociais, quando for o caso, ou em documentos públicos, sempre dependendo do tipo de pesquisa.

A técnica de recrutamento é variada, sempre em busca de acessar o entrevistado. Partir de indicações de outros pesquisadores ou de conhecidos que têm acesso ao grupo é bastante comum, assim como o uso da estratégia da “bola de neve”, segundo a qual se acessa um entrevistado e se pede a ele que indique outro.  Em todas as técnicas é preciso ter ciência de que a forma de se alcançar o entrevistado pode implicar um viés na pesquisa. Eu posso, pelas condições de recrutamento que tive, ter acesso a uma fração do grupo que quero pesquisar. Imagine uma pesquisa que investigue os ricos e que  pesquisador tem acesso a eles por meio de Organizações Não Governamentais (ONGs) ligadas a pautas progressistas. Com esse acesso, o pesquisador entrevista a primeira pessoa, que lhe indica a próxima e assim por diante. Ocorre que as pessoas tendem a indicar quem lhes é parecido e, em função da estratégia de recrutamento, é possível que o pesquisador tenha acessado apenas ricos progressistas. Isso não é um problema, mas é importante ter ciência de que se está falando desse grupo, e não de ricos em geral.

Uma vez satisfeito com o critério de recrutamento, o pesquisador se depara com a decisão de saber quantos entrevistar. Há um certo consenso na bibliografia de que se deve entrevistar até o ponto de saturação, que ocorre quando os dados novos não acrescentam aos já coletados e o quadro teórico já não se modifica com outras entrevistas (Barbot, 2010/2015). Isso é muito incerto, contudo, e o tempo disponível e a sensibilidade do investigador devem preponderar. O uso de técnicas exploratórias (como apontei acima) pode auxiliar nesse ponto. Tendo informações prévias dos entrevistados, em função do meu problema, posso definir um número de entrevistados que provavelmente represente o que quero estudar e seja adequado ao tempo que tenho.

Os manuais também trazem dicas sobre como entrevistar, e aqui só me cabem algumas ponderações. O uso de roteiro semiestruturado de entrevista pode ser mais ou menos importante dependendo da pesquisa. Ele é relevante quando se busca a reprodutibilidade da pesquisa, uma vez que permite outros pesquisadores usarem roteiros similares com outras pessoas e, assim, compararem os dados. No entanto, isso não é uma exigência às técnicas qualitativas, como é às quantitativas, justamente por seu foco mais próximo ao indivíduo e à ação. Os roteiros também são mais importantes quando preciso comparar entrevistas dentro de um mesmo desenho de investigação, por exemplo. De toda forma, com ou sem roteiro, como se pergunta importa: os termos utilizados e a ordem das perguntas afetam os dados recolhidos. Por exemplo, em pesquisas que buscam comportamentos e justificativas pouco acessíveis em uma conversa superficial, perguntar primeiro “o quê” e “como”, com ênfase em eventos, experiências e exemplos específicos, e só depois “por quê” dá às pessoas a chance de oferecer suas próprias explicações (Gerson & Damaske, 2020).

Por fim, a análise de entrevistas exige que o pesquisador seja um intérprete, ou seja, coloque em jogo sua imaginação sociológica. Não há forma rígida para tanto, e lido aqui apenas com a questão da transcrição. Ela não é obrigatória e, de novo, é mais ou menos importante em função do problema de pesquisa. Ela é mais relevante, por exemplo, quando preciso analisar as falas com precisão. Por exemplo: quero saber que tipo de vocábulo se usa para dar uma opinião sobre algo, para julgar certa coisa etc., e quero comparar uma entrevista com outras nesse aspecto. De toda forma, é necessário estar ciente de que a transcrição cria uma “outra” entrevista. Por mais que anotemos emoções, reações etc., elas são limitadas a notas no papel e perdem bastante de sua força real em proveito das palavras. Ocorre que, como afirma Barbot (2010/2015), a entrevista é uma “sequência etnográfica” que começa no convite ao entrevistado e termina quando não houver mais contato com ele. É comum que as partes mais interessantes de uma entrevista surjam quando desligamos o gravador. Dessa forma, ainda que se transcreva a entrevista, dois documentos são companheiros do investigador: um caderno de campo, em que anotamos tudo o que observamos, antes, durante e depois da entrevista, e um documento sintético da própria entrevista, feito logo que ela se encerra, onde anotamos todas as impressões que tivemos.

3. Vantagens, limites de validade e críticas conhecidas

Não há método bom ou ruim, mas o adequado à minha pesquisa, e essa é a primeira análise que o investigador precisa fazer. Em seguida, ele precisa ter ciência dos limites que o método escolhido lhe impõe, pois isso lhe permite responder melhor ao seu problema de pesquisa. Limites não são deficiências. Assim, é um falso problema imposto às pesquisas que usam entrevistas dizer que lhes falta representatividade, pois se o investigador usa entrevista é porque não busca a representatividade. Como sugere Lareau (2021), a quem cobra isso do investigador pode-se responder simplesmente que o estudo procura aprofundar o entendimento do significado dos eventos, e não generalizar. Uma forma de dar mais consistência representativa a uma pesquisa é comparar o corpus pesquisado com dados estatísticos. Por exemplo: as pessoas que entrevistei têm escolaridade X, que é inferior à escolaridade média brasileira etc., contudo, isso não é uma obrigação e só se aplica se o problema exigir. De resto, é uma cobrança inadequada a uma técnica qualitativa.

Entremos, então, nos limites que são próprios da técnica em relação aos quais o investigador precisa tomar posição. A primeira questão se refere ao fato de que, embora se possa criar um clima propício para a pessoa se sentir à vontade para falar de si, a entrevista é sempre um cenário artificial. O entrevistado é retirado de sua rotina normal, muitas vezes deslocado para algum lugar que desconhece e colocado em uma situação, em geral, rara em sua vida, para conversar com uma pessoa que provavelmente não conhece. Dessa forma, a relação entre a fala e a realidade nunca é direta. Esse é um limite da entrevista, mas também uma de suas vantagens. Isso porque, diferente da etnografia, essa situação artificial permite que o investigador tenha maior controle sobre a produção de dados. Embora a escuta seja o que há de mais importante e o entrevistador deva se limitar a falar o mínimo, o fato de ele fazer as perguntas, na ordem que deseja, com os termos que escolhe, permite que os dados coletados tenham maior relação com o problema de pesquisa. Isso é dizer que não se deve imaginar que a entrevista é um “dia qualquer” na vida do entrevistado, mas justamente essa excepcionalidade é que permite a produção dos dados que se busca. A entrevista permite que acessemos, como afirma Tavory (2020), as informações refratadas, ou seja, um mundo exterior que é visto só indiretamente pelo entrevistado (como um vidro refratado), mas que se torna visível ao entrevistador que mobiliza bem sua técnica.

Na mesma linha de problemas, surge o questionamento sobre uma suposta tendência do entrevistado a produzir respostas excessivamente racionalizadas (ver discussão em Tavory, 2020) ou que se adequem às expectativas que ele atribui ao entrevistador, pela inclinação a parecer aceitável ou desejável. Muitos autores questionam se essa é realmente a tendência dos entrevistados, que, na verdade, muitas vezes querem contrariar o entrevistador e até provocá-lo. Também é questionável que a resposta dada com tempo de elaboração seja mais racionalizada do que aquela, por exemplo, dada em um questionário. A própria frequência com que as pessoas se contradizem em entrevista mostra isso. O que se deve assumir é que, provavelmente, diversos tipos de resposta devem aparecer em uma entrevista. Segundo Pugh (2013), elas podem ser honoráveis, produzindo o viés da busca pela admiração do entrevistador; esquemáticas, que são como as pessoas falam, etc.; viscerais, que expressam emoção, julgamentos morais, etc.; e as de meta-sentimentos, que são os sentimentos expressos sobre os próprios sentimentos (quando, por exemplo, uma pessoa avalia que não devia ter julgado algo de tal forma, revelando a contradição entre a norma que devia seguir e a prática que segue). Outros autores acrescentam outros tipos possíveis (Gerson & Damaske, 2020), e o que importa é o pesquisador entender quais sua técnica está produzindo, se são essas que importam para seu problema e como trabalhar com elas.

4. Exemplos de aplicação em ciências sociais

Os três estudos a seguir foram escolhidos segundo dois critérios: um brasileiro, um latino-americano e um não latino-americano, que usaram entrevistas em diferentes desenhos metodológicos.

Em “Vozes do Bolsa Família”, o problema de pesquisa de Leão Rego e Pinzani (2013) era investigar os efeitos políticos e morais do Programa Bolsa Família sobre suas beneficiárias a partir da noção de autonomia individual. O principal achado foi que o recebimento regular de renda monetária promovia um sentimento de maior liberdade e autonomia, além de maior respeitabilidade social. Especialmente para as mulheres, representavam uma forma de empoderamento. Foram feitas 150 entrevistas abertas, uma vez que essa técnica permite, melhor do que outras, o acesso à estrutura subjetiva das entrevistadas, captando as mudanças lentas. Embora houvesse um roteiro e um protocolo definido, os pesquisadores foram sensíveis a se adaptarem ao contexto observado. Dessa forma, o tempo de entrevista foi muito variado e algumas foram realizadas com várias pessoas ao mesmo tempo.

Em “Money, Morals, and Manners”, o problema de pesquisa de Lamont (1992) era investigar como homens de classe média alta na França e nos Estados Unidos traçam fronteiras morais, socioeconômicas e culturais para definir quem consideram dignos de respeito e quem excluem como “os outros”. O principal achado foi que os americanos priorizam fronteiras socioeconômicas (sucesso profissional e dinheiro) e morais (disciplina, integridade), enquanto os franceses dão mais peso a fronteiras culturais (refinamento intelectual e estético), revelando repertórios nacionais distintos de avaliação moral. Foram feitas cerca de 160 entrevistas a partir de um roteiro semiestruturado. O roteiro permitia que os entrevistados elaborassem livremente suas categorias e exemplos, mas a repetição do roteiro a todos os entrevistados tornava possível a comparação entre os indivíduos. Com isso, a autora pôde codificar as entrevistas na análise e, a partir das codificações, quantificar as menções a diferentes tipos de fronteiras, auxiliando em sua conclusão.

Em “La política de la elite”, o problema de pesquisa de Gayo e Méndez (2024/2025) consistia em investigar como se forma a subjetividade política das elites chilenas, desafiando a percepção de que indivíduos privilegiados se pautam apenas por lógicas de mercado e pela busca das melhores oportunidades de lucro. A política é internalizada na elite por diferentes formas de socialização, produzindo uma elite politicamente mais diversa do que se costuma reconhecer. O papel da criação familiar é fundamental aqui e, em especial, as mães são figuras centrais na definição de um mundo moral para os filhos. Metodologicamente, os autores combinaram análise espacial, técnicas quantitativas (análise de correspondências múltiplas) e entrevistas em profundidade com 43 mães que vivem nas áreas mais ricas de Santiago. A investigação articula dados estruturais sobre trajetórias sociais e escolares com o relato subjetivo das próprias entrevistadas sobre criação dos filhos, orientação política e vivência da cidade, o que permite relacionar posições objetivas na estrutura social a orientações ideológicas e práticas cotidianas de reprodução de classe.

5. Debates contemporâneos e variações

A entrevista é sempre uma interação entre entrevistado e entrevistador, sendo que essa interação é algo que nunca desaparece. Quando se faz um grupo focal, logo o mediador assume uma importância menor nas interações e os participantes se preocupam mais em se engajar uns com os outros. Na etnografia, embora o corpo do pesquisador seja presença constante, tende-se a se acostumar com ele e tocar a vida próxima ao normal. Na entrevista, o pesquisador está sempre lá, afetando cada frase, cada gesto, cada olhar, cada palavra. Isso é inafastável, e devemos ter ciência das posições sociais envolvidas e usar essa presença de forma positiva na produção e na análise de dados.

A principal lição, para tanto, é o conceito de reflexividade de Pierre Bourdieu (1993/2016), que se refere tanto às posições sociais dos sujeitos quanto aos seus conceitos. O pesquisador deve ser reflexivo sobre a posição social do entrevistado, mas também deve buscar compreender como o entrevistado percebe a posição social do pesquisador. Essa percepção sempre ocorrerá, mesmo que inconscientemente. Não se trata, portanto, de negá-la, mas de ter ciência de seus efeitos. Uma entrevistada que trabalhava em uma agência de luxo me narrava uma atitude que teve em seu trabalho quando teve dúvida se agiu eticamente. Ela interrompeu sua fala e perguntou se sua atitude estava correta. Ao me pedir que julgasse sua ação, eu notava algo que estava presente desde o início: ela atribuía a mim uma certa referência do certo e do errado, provavelmente por minhas credenciais acadêmicas. Isso me obriga a ler todas as suas respostas “morais” sob essa chave e a controlar a análise com isso em mente. Em outras palavras, preciso assumir que a passagem das respostas honoráveis às viscerais é mais difícil naquele caso, mas não impossível.

Se temos essa noção antes da pesquisa, podemos criar estratégias. Michèle Lamont (1992) entrevistou homens da alta classe média dos EUA e da França quando era uma jovem professora em Princeton. Ela se esforçava para criar no entrevistado dúvidas de classificação, aproveitando sua própria posição social. Esses homens endinheirados de meia-idade tendiam a se sentir superiores a uma jovem mulher; contudo, suas credenciais de Princeton tendiam a criar neles um sentimento de inferioridade intelectual. Essas dúvidas causavam o que Lamont chamou de blurring, borramento, que ela explorava na pesquisa.

De todo modo, não haverá apagamento do pesquisador, portanto, cabe a nós ter ciência do jogo social presente. Se tenho essa ciência, posso usar a relação a meu favor. A forma como os entrevistados me trata torna-se um dado de pesquisa ao revelar sua visão de mundo, sua forma de julgar, sua posição social etc. Nesse sentido, minha posição social não é sempre um limite para a entrevista e pode mesmo potencializá-la.

Também devemos ser reflexivos em relação à posição social a que remetem os conceitos e vocábulos que usamos. O entrevistador deve evitar introduzir bruscamente um vocabulário manifestamente distinto do vocabulário do entrevistado (Barbot, 2010/2015) ou, como afirma Bourdieu, evitar a imposição da problemática. De fato, o entrevistador não deve supor que o entrevistado tenha domínio de um conceito acadêmico. Por exemplo, quando entrevisto sobre distinção, não faz sentido perguntar às pessoas o que elas consideram distintivo, legítimo etc. Esses são termos técnicos que compreendo a partir de perguntas indiretas, como: “que tipo de música você gosta”, “que tipo de música você não gosta”, “o que acha de quem gosta do que você não gosta”, “você se relacionaria com essa pessoa” etc.

Contudo, de fato é possível haver limites intransponíveis. É possível que eu não consiga entrevistar alguém pelo que sou ou pelo que o entrevistado imagina que sou. Posso não ter acesso ao campo, como ocorre frequentemente com quem estuda elite ou pessoas ligadas a atividades ilícitas. Pode ser ainda que eu tenha acesso aos entrevistados, mas as posições sociais entre nós inviabilizam a entrevista em função do meu problema de pesquisa. Em uma pesquisa recente, senti inadequação em entrevistar estudantes de graduação e funcionários da mesma universidade em que trabalho sobre o tema da cultura legítima, preferindo que pesquisadores de pós-graduação o fizessem. Quando esses limites se impõem, o pesquisador deve assumi-los e cabe a ele adaptar sua pergunta e seu método.

Encerro este item refletindo sobre três mudanças no uso de entrevistas em novos contextos. A primeira é o uso de plataformas on-line para a realização de entrevistas. É evidente que uma técnica caracterizada pela interação entre pesquisador e pesquisado sofre impactos com a mediação tecnológica. Contudo, os impactos devem ser ponderados conforme o tipo de pesquisa. Uma investigação que depende de maior interação com o ambiente do investigado pode sofrer mais do que outras. Dessa forma, tudo o que se pode dizer é que o pesquisador deve reconhecer as especificidades, da mesma forma como já deve fazer em função do local de uma entrevista presencial (se a entrevista é na casa do entrevistado, em algum lugar que o entrevistador escolhe etc.). A segunda se refere às formas de análise. Softwares têm ajudado os investigadores a organizar as entrevistas, fazer análises mais complexas e mesmo quantificar dados. Quando se tem uma grande quantidade de textos e se está interessado em reconhecer padrões e especificidades, mensurar termos auxilia o pesquisador, produzindo nuvens de palavras, análises de coocorrência, modelagem de tópicos, compreensão de mapas semânticos etc. Alerto apenas que os softwares não devem ser fetichizados, isto é, que sua presença não garante a qualidade da pesquisa, assim como sua ausência não a impede.

Por fim, há uma importante inflexão, bastante positiva, no uso de entrevistas em pesquisas de métodos mistos ou múltiplos. Em geral, as entrevistas são usadas em conjunto com outras técnicas qualitativas, especialmente a etnografia. Contudo, tem-se avançado no uso de entrevistas em pesquisas que também empregam técnicas quantitativas. Um exemplo disso é a pesquisa que resultou em Culture, Class, Distinction, de Tony Bennett, Mike Savage, Elizabeth Silva, Alan Warde, Modesto Gayo-Cal e David Wright, publicada em 2009. Após aplicar um questionário representativo da população britânica, com o qual se buscava captar seu mapa cultural, a equipe de pesquisa selecionou alguns respondentes para entrevista. Se o questionário permitiu posicionar o respondente nesse mapa cultural, a entrevista permitiu compreender os sentidos de suas práticas, as hierarquias que os sujeitos mobilizam e seus julgamentos subjetivos.

6. Referências bibliográficas

Textos fundadores e genealogia

Bastide, Roger, & Fernandes, Florestan. (2008). Brancos e negros em São Paulo (4ª ed.). Global. (Obra original publicada em 1955).

Bourdieu, Pierre. (2016). Compreender. In Pierre Bourdieu (Eds.), A miséria do mundo. Vozes. (Obra original publicada em 1993).

Merton, Robert King, & Kendall, Patricia Louise. (1946). The focused interview. American Journal of Sociology, 51 (6), 541–557. https://doi.org/10.1086/219886.

Manuais e guias de referência

Barbot, Janine. (2015). Conduzir uma entrevista de face a face. In Serge Paugam (Ed.), A pesquisa sociológica (pp. 102–123). Vozes. (Obra original publicada em 2010).

Gerson, Kathleen, & Damaske, Sarah. (2020). The science and art of interviewing. Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/oso/9780199324286.001.0001.

Lareau, Annette. (2021). Listening to people: A practical guide to interviewing, participant observation, data analysis, and writing it all up. University of Chicago Press. https://doi.org/10.7208/chicago/9780226806600.001.0001.

Lima, Márcia. (2016). O uso da entrevista na pesquisa empírica. In Alexandre Abdal (Ed.), Métodos de pesquisa em ciências sociais: Bloco qualitativo (pp. 24–41). Sesc São Paulo; Cebrap.

Crítica metodológica

Lamont, Michèle, & Swidler, Ann. (2014). Methodological pluralism and the possibilities and limits of interviewing. Qualitative Sociology, 37 (2), 153–171. https://doi.org/10.1007/s11133-014-9274-z.

Pugh, Allison J. (2013). What good are interviews for thinking about culture? Demystifying interpretive analysis. American Journal of Cultural Sociology, 1 (1), 42–68. https://doi.org/10.1057/ajcs.2012.4.

Tavory, Iddo. (2020). Interviews and inference: Making sense of interview data in qualitative research. Qualitative Sociology, 43 (4), 449–465. https://doi.org/10.1007/s11133-020-09464-x.

Aplicações empíricas

Gayo, Modesto, & Méndez, María Luisa. (2025). La política de la élite: Ideología, crianza y movilidad social en el Chile neoliberal (María Julia de Ruschi, Trans.). Fondo de Cultura Económica. (Obra original publicada em 2024).

Lamont, Michèle. (1992). Money, morals, and manners: The culture of the French and the American upper-middle class. University of Chicago Press. https://doi.org/10.7208/chicago/9780226922591.001.0001.

Leão Rego, Walquiria, & Pinzani, Alessandro. (2013). Vozes do Bolsa Família: Autonomia, dinheiro e cidadania. Editora Unesp.

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